
Paulo César Werner em entrevista exclusiva
na redação do Portal Net Babillons.
EMOÇÃO MAIOR
Net Babillons
Nesta viagem para aquisição de embarcações, qual
foi o momento mais emocionante pelo qual você passou ?
Paulo César Werner
Uma dessas canoas, que é a Canoa de Tolda, foi comprada numa região
onde as estradas são péssimas e caminhão teria muita
dificuldade de chegar, o local chama-se Traipus, em Alagoas, no Baixo São
Francisco. Então contratei um prático do rio e navegamos dois
dias com essa canoa até Penedo para facilitar o acesso do caminhão.
Esses dois dias considero, foi o meu presente de Natal do ano 2000. Navegar
com uma Canoa de Tolda pelo Rio São Francisco é uma coisa que
certamente pouquíssimas pessoas fizeram nesses últimos tempos,
foi um momento de verdadeiro deleite.
A MAGIA DO RIO SÃO FRANCISCO
Net Babillons
O que lhe chamou mais atenção nesse trajeto do Rio São
Francisco ?
Paulo César Werner
No Rio São Francisco mais especificamente o que me chamou atenção
foi a clareza da água do rio, extremamente transparente, belíssima,
azul, com o fundo cheio de plantas aquáticas, muito peixe. As barrancas
do rio são uma viagem no tempo, muito interessante, existem várias
fazendas, igrejas, povoados, inclusive o local onde morreu Lampião,
fica próximo a cidade de Piranhas, nós passamos a cerca de 300
metros deste local, que compõe toda uma história, uma paisagem
histórica do Brasil.
A FORÇA DA NATUREZA
Net Babillons
Onde em sua viagem você conseguiu avistar maior número de animais
e diversidade em fauna ?
Paulo César Werner
No alto do Rio Amazonas, em Furo do Japurá, Rio Surubiú, lá
tive o prazer de ver centenas de jacarés, muitas aves, muitos peixes,
diversidade inacreditável tanto vegetal quanto animal. O local onde
estive é de difícil acesso, realmente para se chegar lá
tem que estar disposto, são dias de deslocamento em barcos pequenos.
SURPREENDENTE
Net Babillons
O que de exótico e sui generis lhe chamou atenção nesta
viagem ?
Paulo César Werner
Quanto mais eu viajo pelo Brasil, mais impressionado fico, a diversidade que
se encontra tanto de biotipos humanos, paisagens belíssimas. No litoral
da Bahia o acarajé, vatapá, moqueca, são pratos bem conhecidos
e muito apreciados. Na parte do Rio São Francisco, onde chamam de Sertão
o prato típico de lá é o bode e o queijo de cabra. Todos
os pratos giram em torno da carne do bode. Já no Amazonas e Pará
tudo é voltado ao rio, a carne de jacaré, uma infinidade de
peixes, temperos dos mais variados que são retirados da floresta, alguns
de sabor estranho. Cada local tem a sua peculiaridade, a sua culinária,
coisas boas e ruins, mas todas típicas e exóticas.
CULINÁRIA CURIOSA
Net Babillons
Durante as suas viagens, em questão de culinária, em algum momento
você ficou constrangido ?
Paulo César Werner
Teve um episódio não nesta viagem, mas na Expedição
Langsdorff onde participei de uma festa que se chama Taboca com os índio
Mundurucus. Eles mastigam a mandioca, regurgitam em um tacho este material
que entra em processo de fermentação e dali é extraído
uma bebida alcoólica que é distribuída para todos os
índios. As aldeias são muito grandes e na que tivemos tinham
8 mil índios, na festa eles ficam completamente alcoolizados e se divertem.
Para nós de origem européia ao bebermos tal mistura, causa um
mal estar incrível, a barriga fica inchada, cheia de gases. Foi desagradável,
isso não acontece com os índios, mas eles sabem que acontece
conosco e riem de como nós ficamos.
EMBARCAÇÕES RARAS
Net Babillons
Nesta viagem, qual foi a embarcação mais rara adquirida ?
Paulo César Werner
Uma foi a Canoa de Tolda do Rio São Francisco e a outra foi a Canoa
de Japá do Rio Amazonas. Ambas me deram um trabalho incrível
para localizá-las.
A DENGUE
Net Babillons
Paulo é verdade que em meio a sua viagem, você contraiu também
uma doença do mosquito ?
Paulo César Werner
Eu contraí dengue em Manaus, que se manifestou quando eu estava em
Santarém, a caminho de Furo do Japurá e Rio Surubiú.
A falta de experiência no trato desta doença me fez crer que
havia contraído sarna, porque dá muita coceira no corpo todo,
principalmente nas axilas, cheguei a ir numa farmácia e comprar um
sabonete para pediculose; o farmacêutico ficou desconfiado olhou mas
não disse nada, então voltei para o hotel. Nesta noite em Santarém
tive febre altíssima, chegando aos 40 graus, durante a noite mesmo
desci e fui na farmácia novamente falei com a mesma pessoa, aí
o farmacêutico me olhou e com certeza identificou a dengue, o tratamento
é semelhante ao de uma gripe, só não se pode tomar ácido
acetilsalicílico, tomei remédios a base de dipirona. Nesta fase
de Santarém até a chegada no Rio Surubiú, praticamente
fiquei na rede dentro da embarcação o tempo todo, às
vezes o comandante do barco me chamava, perguntava se eu queria ver outra
canoa, ia com muita dificuldade pois tinha dores por todo o corpo, muita coriza,
salivação, dor de cabeça, olhos infeccionados, é
horrível! Depois foi naturalmente desaparecendo, o processo todo dura
de 3 a 4 dias, conforme a resistência do organismo daquele que contrai;
há casos que ficam bem mais sérios.
O RESULTADO
Net Babillons
Paulo o saldo da viagem, contudo foi positivo ?
Paulo César Werner
Com certeza, a viagem foi um sucesso, porque conseguimos efetivar a aquisição
de 6 embarcações importantes, raras, que estão desaparecendo
do cenário nacional e agora ficarão preservadas na nova área
do Museu Nacional do Mar. Tenho lembrança dos momentos incríveis,
belíssimos mesmo na cabeceira do rio com o por-do-sol exuberante e
cada detalhe tem a sua importância registrada.
Editada em 12 de fevereiro de 2001.
Do Portal
A GMG e o Portal Net Babillons congratulam-se com a Petrobrás pela
iniciativa de patrocinar a compra da nova área do Museu para ampliação,
construção, reformas e a aquisição de acervo para
Museu Nacional do Mar, preservando assim a história das Embarcações
Brasileiras.
Paulo César Werner
Biólogo e Administrador do Museu Nacional do Mar
cidade histórica de São Francisco do Sul, ao longo dos 6 Km de mar da Baía Babitonga. Uma ilha descoberta em 1504 por navegadores franceses, em 2004 fará 500 anos de descoberta. Paulo participou da importante Expedição Langsdorff no ano 2000 e é o atual Administrador do Museu Nacional do Mar - Embarcações Brasileiras, que fica em São Francisco do Sul, Santa Catarina. O único Museu temático do gênero na América Latina, um dos quatro existentes no planeta.
A MISSÃO
Net Babillons
Qual foi a missão da última viagem para o Museu Nacional do
Mar ?
Paulo César Werner
Recebemos recentemente um patrocínio da Petrobrás para ampliação
do Museu, que quase dobrará a sua área construída, passando
de 7 mil metros para 12 mil metros quadrados. O objetivo da viagem foi adquirir
embarcações para fazerem parte do acervo. Embarcações
que estão sujeitas ao desaparecimento, as mais raras que pudessem ser
encontradas no litoral e nos grandes rios brasileiros como o São Francisco.
INFLUÊNCIA DAS RAÇAS
Net Babillons
As embarcações brasileiras recebem influências de outras
raças, como isso é visto e qual é o resultado ?
Paulo César Werner
Olhando para as embarcações brasileiras podemos ver um verdadeiro
retrato do Brasil, um caldeirão de raças, existe uma mistura
muito grande de técnicas, materiais que foram adicionados ao nosso
patrimônio ao longo dos 500 anos de história. Temos influência
açoriana, africana, holandesa, francesa, americana e tem algumas embarcações
que tem numa só, a mistura de técnicas de várias etnias
e isso é bem o jeito do Brasil. No acervo do Museu há uma canoa
de corrida baiana, que o casco da canoa em si foi trazido pelos africanos
para o Brasil, as velas foram adicionadas pelos portugueses e outros apetrechos
como uma bolina lateral que se chama espadela de influência direta holandesa;
é uma mistura de técnicas e equipamentos, é o único
no Brasil, não existe em outros países.
O ROTEIRO DE VIAGEM
Net Babillons
Qual o roteiro da sua viagem ?
Paulo César Werner
Eu fiz a viagem a princípio de automóvel, o motivo de viajar
de automóvel foi pelo fato da liberdade que eu tinha de buscar embarcações
e também informações que nós precisávamos
para o Museu. Em Parati, no Rio de Janeiro, foi a primeira parada, onde entrei
em contato com artesãos locais para fornecimento de artesanato naval,
que são pequenas embarcações, para a loja de artesanato
do Museu. No segundo dia, foi o Cabo de São Tomé, Rio de Janeiro,
um local bem sui generis, não existe porto neste local, as embarcações
são grandes de 10 a 15 metros, com quilhas e são arrastadas
na areia da praia por tratores todos os dias, cerca de 50 barcos, num frenético
e lindo movimento. Aí eu fiz o registro fotográfico dessa movimentação
de barcos de colocar e tirar da areia da praia. Depois fui para o sul da Bahia
onde começou a pesquisa propriamente dita, primeiramente na região
de Camamú, dos Saveiros de Vela de Pena,
que são embarcações pequenas utilizadas na pesca e deslocamento,
são bem raras, não houve uma pesquisa, mas provavelmente deve
haver menos de trinta barcos em todo o mundo. Também a Canoa
de Calão, de origem africana, adaptada para as condições
brasileiras e tem esse nome Calão, porque lembra um tipo de cerco à
tainha que se pratica aqui no sul, lá a canoa cerca o cardume depois
a rede é puxada para a praia, é uma embarcação
lindíssima com duas velas enormes tingidas com tinta de mangue, existem
08 embarcações como essa em todo o Brasil. As embarcações
foram despachadas em um caminhão para São Francisco do Sul.
Fui então para o Vale do São Francisco, o Baixo São Francisco,
atrás de uma embarcação que é tida como desaparecida,
ela é a Canoa de Tolda, é de
origem holandesa, pelo que tínhamos conhecimento aqui no Museu de todas
as informações que chegavam até nós, existia uma
única embarcação que pertencia ao Patrimônio Histórico
de Alagoas, era intocável. Percorri cerca de 1000 Km no Vale do São
Francisco atrás dessa embarcação e consegui um exemplar
para o Museu e na verdade existem 3 exemplares da Canoa de Tolda em todo o
mundo, um deles está no Museu Nacional do Mar em São Francisco
do Sul, um em Piranhas e outro em Penedo em Alagoas, todos já tombados
pelo Patrimônio Histórico. Após fui atrás de uma
Canoa de Pesca do Rio São Francisco,
que é uma embarcação belíssima com duas velas
enormes, com vários apetrechos que servem para navegação;
essa canoa está sendo substituída através do tempo por
canoas feitas com compensado naval, sem requinte técnico nenhum, então
está perdendo espaço para o que chamam lá de canoa, mas
não é, por não ter sido produzida por um só tronco.
Depois da compra dessas duas embarcações parti para Manaus-AM,
via Aracaju, lá comecei a pesquisa para encontrar uma canoa que em
vários relatos, desenhos antigos do Rio Amazonas e sua colonização
ela aparecia, descobri que na região de Manaus, Manacapuru já
não existe mais. Parti para uma pesquisa com os comandantes das embarcações
que fazem o trajeto do Rio Amazonas; indicaram um local que se chama Furo
do Japurá, no município de Alenquer no Pará, então
parti para Santarém, de lá para Alenquer. Em Furo do Japurá,
no Rio Surubiú, encontrei a Canoa de Japá,
que está desaparecendo rapidamente, consegui uma dessas embarcações
com todos os apetrechos, a zagaia, arco, flecha, arpão, caniço
e remo, tudo que os pescadores utilizam durante o ano.
De retorno para Santarém, tenho lembrança de uma vez estive
lá e tinha uma embarcação muito bonita que o povo chama
de Canoa de Corrida, Santarém fica na
confluência do Rio Tapajós com o Rio Amazonas, justamente no
Tapajós que é um rio belíssimo de areias brancas, águas
transparentes, encontrei essa embarcação com duas velas, de
origem indígena e que está sendo adaptada para competições
entre as comunidades ribeirinhas. De Manaus despachei num conteiner a Canoa
de Japá e a Canoa de Corrida. Retornei para Aracaju e de lá
para São Francisco do Sul.
AS NEGOCIAÇÕES
Net Babillons
Paulo como aconteceu a negociabilidade com os proprietários destas
embarcações pelo percurso de sua viagem ?
Paulo César Werner
Uma coisa eu aprendi, um trabalho já de alguns anos, que quando se
fala de Museu Nacional do Mar, acervo, os preços vão para a
estratosfera. Sempre que negociava a aquisição, nos primeiros
instantes era como pessoal e só mais tarde então falava que
se tratava de acervo para o Museu. Quando se negocia pelo lado pessoal tudo
fica mais fácil, mas se falarmos que existe uma estrutura grande então
muitas vezes não se consegue efetivar o negócio, essa é
uma visão errada mas que é muito comum.