Perfil
Plinio
Oliveira é um Artista polivalente que usa o referencial da diversidade
na emoção, quando toca piano, canta, compõe ou produz.
Nasceu em Cruz Alta, no Estado do Rio Grande do Sul e ainda criança
foi morar em Curitiba, no Estado do Paraná, onde está até
hoje. É um apaixonado pela Boa Música e isso lhe proporciona
forças para determinadamente difundir boa a música no Estado
do Paraná e pelo Brasil à fora. A sensibilidade de Plínio
faz com que ele seja, sem dúvida, uma pessoa especial na música
brasileira.
Curitiba agrega valores inestimáveis da cultura nacional, um deles
é Plínio Oliveira com mais de 12 CDs gravados. É apresentador
do programa de televisão "Tons do Brasil", de música
popular brasileira.
Entrevista
Portal Net Babillons
Como surgiu seu
gosto pela música ?
Plinio Oliveira
Eu devia ter 4 ou 5 anos de idade; embora sempre me diga curitibano, na verdade
nasci em Cruz Alta, no estado do Rio Grande do Sul, de onde sai com 5 ou 6
anos de idade. Em qualquer lugar onde vou e dou entrevista sempre falo que
sou curitibano, em entrevistas mais íntimas é que eu conto que
sou de lá, até porque tem a ver com minha história musical,
que é um momento muito bonito, com 4 a 5 anos de idade as pessoas no
Rio Grande do Sul tocam acordeão. Então eu via acordeão
sendo tocado e nunca me chamou atenção, um dia fui levado à
casa de uma pessoa para fazer uma visita e lá tinha um piano e foi
a primeira vez que eu senti paixão por aquilo, por brincar. Depois
eu já devia estar com 6 anos de idade, correndo na casa de um vizinho,
estava tocando no rádio a música "Cálice",
do Chico Buarque e Gilberto Gil, lembro direitinho que parei, isso jamais
se apagou da minha memória, eu parei de correr, de brincar, ouvi a
música até o final e quando acabou eu continuei brincando mas
aquilo se impregnou em mim. Então surgiu ali, com 5 ou 6 anos de idade
e ao longo do tempo foi tomando dimensões maiores, foi virando uma
paixão, na verdade a música é um modo de se conectar
com o transcendente, com Deus, com a espiritualidade, com o sentido real da
vida, que para mim não é absolutamente captável pelos
5 sentidos. A música é isso, ela tem a possibilidade extraordinária
de transformar o palpável em impalpável, a minha paixão
pela música é espiritual e surgiu lá na idade dos sonhos.
Portal Net Babillons
Em sua opinião
a musicalidade do brasileiro tem contribuído com a boa música
?
Plinio Oliveira
O brasileiro é reconhecido no mundo inteiro, até onde eu sei,
até onde li. Todo músico brasileiro é reconhecido como
bastante criativo. Eu atribuo isso, como alguns estudiosos, a nossa mistura
de raças, a própria condição do clima do nosso
país, isso faz com que o brasileiro tenha uma ginga, um suingue, uma
capacidade de driblar o impossível, isso contribui absolutamente em
todas as áreas. Na música erudita, um pianista brasileiro é
mais criativo que um europeu, não significa que ele é melhor,
ele é apenas mais inventivo. Um cantor brasileiro, como Milton Nascimento,
por exemplo, que é extremamente criativo, ele chama muita atenção
internacionalmente, por essa brasilidade; é algo que não se
explica, é algo que não se forja. Atualmente eu faço
uma crítica muito grande a essa tendência de artificialização
dos artistas, dos cantores, onde devagarinho tenta-se apagar algo que é
a nossa essência, que é a nossa criatividade o samba no pé,
que não é necessáriamente você ter ritmo de samba,
mas ter uma relação com a música, com a arte que é
visceral, não é uma relação intelectual é
uma relação de coração; isso contribui absurdamente
com o trabalho de qualquer artista. O brasileiro que quiser ser artista, tem
muito mais chance que qualquer pessoa de outro país, porque já
está na alma dele.
Portal Net Babillons
Sua inspiração
vem de que maneira quando compõe ?
Plinio Oliveira
Sou altamente intuitivo, então, eu aprendi com o tempo que isso se
chamava meditação, que é a suspensão do pensamento.
Eu tinha um amigo que dizia: "quem não pensa é cachorro...",
aquilo eu ouvia e achava engraçado. Mais tarde fui descobrir que quando
a gente consegue suspender todos os pensamentos e colocar a mente em um estado
de receptividade da natureza, das pessoas, é como se a gente fizesse
uma conexão com o pensamento que organiza e sustenta o universo, seja
qual for esse pensamento. Mas o processo criativo é altamente intuitivo
porque esvazio o pensamento quando vou para o piano. Eu componho por encomenda,
às vezes porque estou emocionado com alguma coisa, mas é sempre
a partir disso, preciso esvaziar a mente, quando eu esvazio a mente as idéias
chegam e graças a Deus tem chegado muitas idéias, tenho mais
de 400 músicas escritas e mais de 120 músicas já documentadas
e gravadas por mim mesmo e também por outros artistas.
Portal Net Babillons
Existem lugares
especiais para você compor ?
Plinio Oliveira
Eu aprecio muito o silêncio, mas não é o silêncio
do campo, por exemplo, é o silêncio da cidade, é quando
consigo fechar a porta do meu estúdio e me isolar do barulho que tem
lá fora, mas se me der vontade de ouvir o barulho abro a porta e ouço.
Quando eu estava compondo a minha sinfonia número 1, fui levado pelo
patrocinador para um retiro, ele julgou que lá eu comporia melhor,
de verdade compus, mas compus melhor no caminho, o tempo que eu levava dirigindo
de Curitiba até chegar ao lugar era o tempo que eu compunha, quando
chegava lá fazia anotações, ia no teclado e o resto do
tempo ficava passeando, não compus lá, depois eu contei para
ele que compunha no caminho, mas tudo me ajudou bastante. O lugar tem que
ser silencioso, tem que permitir concentração, mas não
isolado do mundo. Às vezes termino de compor e ligo para casa e mostro
para os meus filhos, para minha noiva, ou para amigos na hora que estou compondo,
é uma forma de me comunicar com o mundo.
Portal Net Babillons
Em suas apresentações
quais os lugares que mais lhe marcaram positivamente ?
Plinio Oliveira
Os lugares onde pude ser mais verdadeiro; eu julguei que ficaria altamente
realizado quando, por exemplo, tocasse no Teatro Municipal do Rio de Janeiro,
é um teatro maravilhoso, eu já havia estado lá e disse:
"um dia vou tocar nesse teatro...". No ano passado fui para tocar
no Teatro Municipal com a Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do
Rio de Janeiro, que é uma coisa bastante importante. O teatro é
maravilhoso, mas aquele ambiente altamente competitivo; eu toquei bem, o público
gostou, mas não me sentia acolhido pelo ambiente, pela orquestra, pelos
músicos, pelo maestro, eram estranhos e estavam tendo que executar
minha obra porque a orquestra tinho sido paga para aquilo. Então achei
que lá seria o meu ápice e não foi, o meu ápice
tem sido em cidades pequenas. Todo ano vou para São José do
Rio Preto - SP, onde a primeira vez que fui cantei para 30 pessoas, na segunda
vez foi para 60 e agora na última vez fiz um concerto para 450 pessoas
que vão ao teatro para me ver, não por qualquer outra razão,
é o lugar onde mais me sinto bem, porque sou altamente verdadeiro e
é um público que eu fui construindo com o tempo. É diferente
de tocar no Teatro Municipal do Rio de Janeiro ou no Guaíra, em Curitiba
- PR, quando vou dentro do meu projeto tocar com um artista como o Oswaldo
Montenegro, que é um amigo muito querido, eu toco, faço a abertura,
toco junto com ele durante o show, mas as pessoas estão lá para
ver o Oswaldo e não para me ver. Já cantei em Porto Alegre -
RS para 40 mil pessoas, mas elas não estavam lá para me ver,
elas estavam esperando o show do Raça Negra que acontecia no final
e eu junto com outros artistas fizemos o festival da abertura. Então
percebi que o melhor lugar para o artista tocar, não tem haver com
a quantidade de pessoas, ou com a magnificência do espaço, mais
com o carinho e a atenção que o público está dando
para o que você está fazendo. Tanto que mudei a minha postura
hoje; eu tenho dois trabalhos que faço: um é construindo uma
carreira, que com o tempo espero ter cada vez mais público, para um
dia poder cantar para 10 mil pessoas, mas para 10 mil que estão lá
para ouvir o que eu tenho a dizer mesmo, o outro trabalho é aquele
que faço, que chamo "por amor", são apresentações
que faço e não ganho nada, então estou indo para Florianópolis
em setembro vou fazer a abertura de um Congresso pela Unipar, eles disseram:
"Plínio e o cachê ?", eu disse: "não tem
cachê, para fazer um show cobro R$ 3.000,00, R$ 4.000,00, R$ 5.000,00
mas para tocar para vocês que tem a compreensão do que faço,
eu pago para ir". Então são duas posturas bem interessantes,
porque o melhor lugar para mim é aquele que as pessoas estão
sintonizadas com o que faço e posso ser bem verdadeiro, falar daquilo
que acredito sem que as pessoas fique incomodadas com isso.
Eu acho que São José do Rio Preto - SP é o lugar mais
marcante.
Portal Net Babillons
O que um artista
deve fazer para chegar ao êxito na sua opinião ?
Plinio Oliveira
Eu sou um admirador da música brasileira como um todo, mas tem um artista
bastante importante que é o Tom Jobim, li uma entrevista dele que mexeu
muito comigo, o Amir Chediack que é um produtor, arranjador e publica
livros importantes de música brasileira, perguntou para o Tom: "A
que você atribui a importância do seu trabalho?" e o Tom
respondeu: "Eu não sabia que estava fazendo uma coisa importante".
O êxito, o reconhecimento, você se tornar um artista competente
naquilo que faz, portanto, sendo competente você vai ter espaço
de trabalho, tem a ver com duas coisas: primeiro a verdade com que você
faz aquilo e a dedicação com que você se entrega e a segunda
coisa, não a falta de objetividade, mas uma ausência de espera
de recompensa. Quando as pessoas me procuram para produzir um disco, que eu
trabalho também como produtor para outras pessoas, sempre digo para
elas: "Não espere desse disco, desse CD, mais do que o prazer
de fazê-lo, porque se você esperar mais do que isso, possivelmente
vai se frustrar. Agora se você não esperar nada além do
prazer de estar fazendo isso, você não vai se frustar, vai estar
feliz em realizá-lo e muitas coisas se desdobrarão a partir
daí". Tenho um pensamento de uma professora minha que certa vez
disse e que marcou demais: "O contrário do belo não é
o feio, o contrário do belo é o falso". Portanto o segredo
de você obter êxito artisticamente como qualquer coisa na vida
é sendo verdadeiro, se a música tiver no imo da alma, estiver
nas veias do coração, estiver dentro do artista, ele já
é sucesso, não há nada mais o que fazer.
Portal Net Babillons
Em suas apresentações
você costuma tocar qual tipo de obras ?
Plinio Oliveira
Embora tenha estudado música erudita dos 9 anos 16 anos, porque é
um processo de aprendizado, que aliás foi o que me fez decidir pela
música popular brasileira, hoje sou dedicado a MPB, então os
meus compositores e obras prediletas são: Tom Jobim, Chico Buarque,
Vila Lobos, naturalmente adoro Beethoven, tem alguns trabalhos que estou passando
para o português, algumas canções do Beethoven, do Schumann,
Debussy, estou pegando a melodia e colocando letra em português, dentro
da música brasileira os craques Milton Nascimento, o maior deles, sem
dúvida é Tom Jobim, o segundo: Chico Buarque tanto musicalmente
quanto poéticamente, quanto a figura social deles são pessoas
indispensáveis para o nosso país, normalmente quando estou no
palco executo obras deles. Eles falam do que somos nós, do que poderíamos
ser ou ainda do que já fomos e viremos a ser.
Portal Net Babillons
Em sua opinião
o povo brasileiro está servido de boa música clássica
ou isso ainda não aconteceu ?
Plinio Oliveira
Se a gente interpretar a grande mídia como a intermediadora entre a
criatividade e o povo, a arte que é o trabalho de quem lê a alma
do povo e traduz isso em verdade, eu vou dizer que não, o povo não
está bem servido, porque a mídia, os grandes meios de comunicação
de massa, eles tem um compromisso comercial muito severo, muito austero, muito
difícil; eu que trabalho com televisão sei o quanto é
complicado para uma emissora, como a que exibe o meu programa que é
a CNT, o quanto é complicado para pagar as contas no final do mês,
então essa preocupação altamente comercial, que infelizmente
está inerente a televisão aqui no Brasil, faz com que a televisão
não ofereça ao público o que há de melhor, mas
o que há de mais fácil, o que é mais digerível
em tempo curto.
Uma música bonita, você precisa ouví-la no mínimo
3 vezes para entender o quanto ela é bonita. Na televisão, no
rádio não dá para você colocar uma música
3 vezes para ser entendida, se ela não for entendida na primeira audição
o público não vai querer ouvir mais, vai mudar de estação,
e ao mudar a tv e o rádio perdem audiência, perdem anunciante,
perdem dinheiro. Então eu digo que a culpa nem é das emissoras
de televisão ou diretores, a culpa é da sociedade como um todo.
Nós temos problemas estruturais muito severos na educação,
na consciência social, portanto o povo não está bem servido
de música pela mídia, mas tem muita música boa sendo
feita. Se você entra em uma loja de discos, ou na internet vê
a quantidade de coisas, o que precisa é as pessoas serem informadas
disso, de que elas precisam ouvir mais de uma vez uma música, para
apreciar a beleza dela. A música não é como a beleza
exterior de uma mulher, ela é como a beleza interior, você precisa
viver muitos anos ao lado de uma mulher verdadeiramente bonita para aprender
a amá-la e a música é assim, a verdadeira beleza da música
está na essência e para isso, a televisão, o rádio,
infelizmente, não estão preparados para fazer esse tipo de trabalho;
o que é uma grande pena, porque eles deixam de cumprir a sua grande
função e seguem apenas a busca pelo capital, é triste
isso!
Portal Net Babillons
As instituições
de ensino superior no Brasil tem cumprido o seu papel no que diz respeito
a cultura e a arte ?
Plinio Oliveira
Em alguns lugares a gente vê que existe uma movimentação:
acadêmicos, professores, reitores, pró-reitores, pessoas com
sensibilidade acabam realizando alguma coisa, mas no âmbito geral é
uma dificuldade muito grande, eu recebo e-mails de Salvador, Campinas, São
Paulo, Pelotas, de várias partes do Brasil onde entra o sinal do meu
programa de televisão e o público é feito de pessoas
que tem um apuro estético para apreciar a beleza da música brasileira,
o importante é ter uma visão crítica muito clara das
coisas. Todos eles se reportam a mim, dizendo que é difícil,
que todos adorariam ter em Salvador, por exemplo, um projeto de programa de
televisão como o nosso: o Tons do Brasil, um projeto de resgate, preservação,
documentação da música brasileira, onde eu digo com todo
o orgulho que não há "jabá". Nenhum artista
paga para participar do meu programa, ao contrário, eles são
remunerados para vir participar, nenhuma gravadora está associada ao
nosso projeto, a gente faz realmente por compreender que precisa ser feito.
Então as universidades não estão cumprindo o seu papel
de fomentadoras disso, porque algumas tem enfoque absolutamente comercial,
os cursos tem esse enfoque. Lembro quando fui fazer a faculdade de psicologia,
cursei mas não conclui, fiz trêz anos para entender que não
queria ser psicólogo, que queria só me enriquecer para ser artista,
me lembro que na primeira aula a palestrante falou umas vinte vezes a expressão
"mercado de trabalho". Aquilo me deixou decepcionado, porque a universidade
ao invés de ser fomentadora do conhecimento e do preparo, elas são
apenas hoje cursos superiores de profissionalização e dentro
desses aspecto não há o estímulo a arte e a cultura,
os alunos não são estimulados para isso, a gente vê que
boa parte das atividades acadêmicas é de churrasco. Saiu uma
pesquisa pelo Instituto Bonilha, em Curitiba-PR, em 1998, dizendo que as empresas
classificam como atividade cultural churrasco e isso reflete a mentalidade
vigente e vai refletir sobre a universidade. Eu sou uma pessoas que pensa
que o indivíduo faz diferença, vou citar um exemplo, havia aqui
em Curitiba uma pessoa chamada Lineu Portela, que era ligada a Universidade
Católica, infelizmente já faleceu, quando estava vivo havia
uma movimentação cultural intensa com a assinatura da Universidade,
quando ele partiu, isso feneceu, mais ou menos como aconteceu com produtores
televisão no Brasil como Augusto Cesar Vanucci. Então o que
está faltanto hoje é que algum universitário idealista,
um professor, algum reitor idealista, use a estrutura universitária
para permitir que a arte chegue até eles, tem projetos que acontecem,
mas diante do que poderia estar sendo feito é triste, porque na década
de 70 o berço da música popular brasileira era a universidade,
a maior parte dos shows de Elis Regina eram em universidades, idem Toquinho,
Vinícius hoje em dia não tem, você não consegue
juntar alunos e fazer com que a universidade se engage para isso. Eu faço
uma critica severa em relação a isso, as universidades precisam
assumir o seu papel de fomentadores, preservadores e produtores de cultura.
Portal Net Babillons
Por que, em sua
opinião, a boa música ainda não se popularizou no Brasil
?
Plinio Oliveira
Tem um dado interessante, falei da Elis agora pouco, o Roberto Menescau que
foi quem produziu um dos mais importantes discos da música brasileira
que é "Elis e Tom 74", ele me contou quando estive com ele
no ano passado que os discos da Elis que vendiam mais, vendiam 10 a 15 mil
cópias, era pouca gente recebendo aquela música; hoje em dia
você tem um Djavan que vende 1 milhão de cópias. Então
na verdade a gente tem a popularidade de alguns artistas, de alguns modelos
de música que conseguem algo que eu respeito muito, que é ser
criativo e ao mesmo tempo atender a demanda de mercado, que é o grande
mistério do trabalho artístico; isso é ser criativo como
Djavan, Caetano Veloso e conseguir vender 1 milhão de discos, então
de uma certa forma existe essa popularização, porém o
que não há, e ai existe uma série de questões
a se levantar, o que acontece é que muitos talentos novos não
são absorvidos pela sociedade porque ela não está aberta
a absorvê-los, isso é uma questão educacional. As nossas
crianças são seduzidas para ouvir o que está na moda,
pelo consumo e deixam de ter uma visão crítica das coisas.

A obra musical de Plínio Oliveira é destaque, não só
nas boas casas do ramo, mas também nos órgãos de comunicação.
Lembro quando levei o meu filho, na época com 6 anos, para escolher um disco e ele queria comprar um que era de um grupo da moda, eu disse tranquilamente: "meu filho esse grupo é tão fraquinho", porque como educador e pai eu tinha o dever de dizer a realidade, disse eles cantam direitinho, o disco é bem gravado, mas eram fracos, porque eram uma cópia infiel e desleal de um grupo da década de 70, que era interessante naquela época; disse que era interessante, mas tinham outras opções. Depois falei de cada opção, do que tinha de bom numa e ruim na outra, e concluí você é quem decide, também falei da música erudita, de Bach que é uma música muito boa, mas que exige que se preste muita atenção. No final ele me surpreendeu quando pegou um CD com Canções de Natal do Ursinho Puff. Então existe uma falta de postura da sociedade em educar as crianças para que elas apreciem música e tenham senso crítico, para que elas escutem e a gente converse a respeito disso. Isso vai fazer com que nossos talentos não sejam absorvidos, porque as pessoas não querem ouvir. Será que é preciso uma pessoa colocar uma melancia na cabeça para se prestar atenção nela ? Eu penso absolutamente diferente disso. Então a boa música não está popularizada como deveria estar, porque este país e o mundo precisa remodelar a idéia de educação, descobrir quais são os reais valores e isso é um trabalho uno, eu estou fazendo a minha parte como artista, como educador, como pai. É um trabalho muito grande, mas espero que daqui a uns 300 a 500 anos, esses 6 bilhões de habitantes do planeta, que até lá serão uns 10 bilhões vão estar apreciando um pouquinho mais um Bethoven, um Cartola e parar de ir atrás desses modismos que representam mais o preenchimento de um vazio existencial. O assunto é bastante longo e profundo, mas em termos básicos eu digo que a boa música não está popularizada, porque a sociedade não valoriza a espiritualidade, o bem, a paz; o sujeito diz que quer a paz, mas com uma pedra na mão direita e uma faca na mão esquerda.
Portal Net Babillons
A boa música
está acima dos modismos da música popular do planeta Terra,
ela permanece sempre viva e atual. A que se deve esse existir ?
Plinio Oliveira
Eu acho que a boa e verdadeira música vem de Deus e para mim a maior
manifestação de Deus é a força da vida que habita
cada um de nós. Quando essa força se manifesta artisticamente
ela se torna perene e eterna como o próprio criador de tudo. A diferença
é esta: a boa música vem do espírito que é onde
habita o criador. Eu tenho uma saudação que faço no final
de meus shows, que é o "namaste", uma saudação
em sânscrito, que significa: "Deus dentro de mim, saúda
Deus dentro de você". A música que tem essa pureza vai durar
eternamente, a música que não tem, vai passar.
Portal Net Babillons
Por que de maneira
geral as rádios e redes de televisão do Brasil não inserem
em suas programações a boa música ?
Plinio Oliveira
É como eu disse agora há pouco, a televisão precisa atender
a resposta do público e aí também falta um pouquinho
de ousadia. A Rede Globo consegue fazer 40 pontos no IBOPE eu com o programa
Tons do Brasil faço 3, mas a gente está mostrando que é
possível. Três pontos de audiência no Rio de Janeiro é
bastante significativo, em Curitiba - PR 3,5 a 4 pontos que a gente faz, às
vezes, é bastante para um programa altamente segmentado. O que falta
mesmo é a televisão ter um pouco mais de ousadia, eu proponho
sempre quando falo a respeito disso, um sonho, talvez uma utopia não
sei até que ponto, que é o que já se chama Pacto Social
da Comunicação. É utópico porque iria requerer
que os donos da redes de televisão passassem a competir com a qualidade
e não com a banalidade. Se esse tipo de decisão fosse tomada
o país iria mudar, porque nosso país assiste muita televisão,
ouve muito rádio, mas para isso é preciso reeducar a sociedade
e isso demora, mas eu não vou desistir.
Portal Net Babillons
Como artista
você tem quantos anos de carreira profissional ?
Plinio Oliveira
Eu comecei a estudar piano aos 9 anos de idade, minha primeira apresentação
que vou chamar de profissional foi aos 16 anos num Festival de Música;
estou com 34 para 35 anos, portanto são quase 19 anos de trabalho.
Meu primeiro CD eu lançei em 1995 e agora em 2002 estou lançando
meu décimo disco. Tenho 146 programas de televisão que produzi
desde 1997 até aqui. Shows eu já perdi a conta de em quantos
lugares já me apresentei. Ainda é pouco, tem muito mais por
fazer.
Portal Net Babillons
Quantos CD´s,
álbuns, você já consegui gravar ?
Plinio Oliveira
Meus, estou produzindo o décimo, como produtor de outros discos mais
de 40 CDs, desde a Orquestra da Universidade de Londrina, Festival de Música
Popular de Cascavel, das crianças cantando na janela do Palácio
da Avenida, fui produtor em 1994 e 1996. Dos meus discos, o primeiro que produzi
foi o "Vôos da Alma", música instrumental voltada para
a World Music, a antiga New Age, o segundo disco se chama "A Namaste",
no CD estão as minhas músicas espiritualistas, o terceiro disco
foi "Iluminati", de novo música instrumental reportando ao
Egito, depois "Mundo Criança", um disco de música
infantil, depois a minha sinfonia, depois um disco sobre Francisco de Assis,
depois "Um Livro Chamado Transcender", depois "O Caminho do
Arco-Íris" e agora "12 Fantasias" que também
é um disco de música instrumental e no segundo semestre de 2002
eu gravo o meu primeiro DVD que é "Plínio Oliveira In Concert",
vai ser um DVD com distribuição mundial.
Portal Net Babillons
Como surgiu o
gosto pelo piano, em sua vida ?
Plinio Oliveira
Para se ter idéia da paixão que tenho pelo piano, quando eu
tinha 10 anos de idade já tocava piano há um ano e já
morava em Curitiba - PR, minha família viajou para o interior Rio Grande
do Sul para visitar um parente. Nós ficamos 15 dias numa cidade que
não tinha piano e eles não conheciam alguém que tivesse
este instrumento, eu chorei os 15 dias de saudade do piano. O piano é
uma extensão do meu corpo e a paixão começou lá
aos 5 anos de idade quando vi o piano pela primeira vez. Mais tarde minha
avó contou que eu brincava com o acordeão, mas eu o virava e
tocava com as duas mãos sem nunca ter visto um piano, isso com 4 anos
de idade e o meu irmão de criação ficava bombeando o
acordeão para eu tocar com as duas mãos, eu não achava
que aquilo tinha que ser tocado só com a mão direira. É
curioso porque até hoje o meu irmão continua bombeando, porque
ele é um dos meus auxiliares técnicos, então eu continuo
tocando e ele lá mexendo a sanfona. Então o piano começou
assim descobri a magia do som ali. O meu último dia de vida vai ser
assim, eu vou fazer uma palestra, vou sentar ao piano e cantar as minhas canções,
então vou para casa adormecer e partir da vida. A última coisa
que eu quero fazer na vida é sentar ao piano e cantar.
Portal Net Babillons
Você tem
como projeto de vida profissional tocar em algum lugar muito especial ?
Plinio Oliveira
Tenho, é uma coisa tão simples e eu espero realizar ainda esse
ano pelo que está se desenhando em relação a patrocínio.
Eu quero fazer um concerto meu, num parque, preferencialmente o Parque Barigui,
vou pedir para que todas as pessoas venham com roupa branca e todos sentados
na grama; eu vou estar ao piano cercado por uma orquestra, vou cantar todas
as músicas, as principais do repertório brasileiro que falem
do amor, da paz, da saudade, da alegria, da felicidade. Estamos planejando
fazer isso esse ano, se não for esse ano será algum dia e quando
for, vai acontecer sempre, porque, depois que as pessoas viverem essa experiência,
quem sentir um décimo do que sinto de emoção quando faço
a minha música, quando toco o meu piano, vai querer sentir isso sempre.
A minha ambição é levar a música para um número
cada vez maior de pessoas e de graça, tem que ser um concerto gratuito,
porque as pessoas tem que receber de graça o que eu tenho recebido
de graça da vida, a minha inspiração.
Portal Net Babillons
Curitiba - Paraná
é considerada nacionalmente como capital dos lançamentos culturais
e comerciais. Isso para você, como artista, é significativo ?
Por quê ?
Plinio Oliveira
Tem, porque fora daqui existe essa percepção. Quando eu fui
para o Rio de Janeiro conversar com o Francis Haimmer, ele disse: "Se
você é de Curitiba, é porque o que você faz é
bom!" Fora daqui existe essa percepção, que se alguém
faz alguma coisa em Curitiba é porque é bem feita. Mas internamente
isso não é verdade, essa é uma percepção
externa. Internamente o público curitibano é mais preocupado
com o conforto, com a disciplina do horário, do que preparado para
apreciar a beleza do que tem no palco, ele é mais preocupado com o
ar condicionado, em sentar num acento pelo qual ele pagou para sentar, do
que em compreender a obra. Então a minha experiência tem mostrado
que dos vários shows que já fiz que se você começa
o show na hora, que se está bem iluminado, que se o som não
está machucando os ouvidos, se a pessoa pagou o ingresso e foi bem
recebida, se o ar condicionado estava agradável ele vai achar aquilo
maravilhoso, pode ser a pior coisa no palco, ele vai levantar e aplaudir de
pé. Porque o público curitibano, também infelizmente
como no resto do país, não está preparado para realmente
mergulhar na beleza do que está se apresentando ali. O contrário
também é verdade, você põe um excelente músico,
mas está meio calor, o ar condicionado está ruim, o acento está
ruim, tem um negócio na frente, eles vão achar horrível.
Então a percepção de que Curitiba é um lugar onde
se lança coisas é mais fora daqui, não é verdade.
Quando dizem que se o negócio faz sucesso em Curitiba é porque
é muito bom, é porque o povo curitibano é tímido
demais, para o curitibano sair de casa e assistir alguma coisa, ou é
porque é um ator global, ou é porque o negócio é
muito bom mesmo. Então nesse aspecto eu tenho sido beneficiado, embora
tenha pouco público nos shows, o maior que eu tive foi um com Oswaldo
Montenegro tinha 1.800 pessoas, normalmente tem 700 a 800 pessoas, que é
um ótimo público para Curitiba, mas quando aconteceu é
porque tinha um artista de grande mídia que é o Oswaldo. As
pessoas não tem o hábito de sair de casa para ver o desconhecido,
um povo que tem senso cultural teria esse hábito, esse hábito
não é do curitibano, é do paulista e do carioca. Por
isso eu digo o contrário, selo de qualidade é você ir
fazer temporada no Rio e São Paulo, fazer temporada em Curitiba quer
dizer apenas que você é bem organizado, que também tem
o seu valor.
Portal Net Babillons
A Internet tem
contribuído em sua carreira ?
Plinio Oliveira
Significativamente de duas formas. Estou associado ao site MP3, que é
um site muito interessante, que as pessoas fazem download de música
e isso permitiu, por exemplo, que eu recebesse um convite de um cineasta americano
para usar uma música minha em um filme, um filme classe C em orçamento
mas, classe A em roteiro. Permitiu-me contato com um dos gênios da música
do mundo hoje, que é o Gabriel Yared, ganhador de Oscars, eu ouvi musicas
dele, ele ouviu músicas minhas, a gente se corresponde. Então
a Internet está permitindo algo que eu jamais conseguiria se dependesse
da indústria fonográfica. Tenho discos que são vendidos
no Japão, na Islândia, na Dinamarca, no interior dos Estados
Unidos, no Alabama tem gente que conhece Plínio Oliveira e eu não
faço parte da indústria fonográfica, sou produtor independente,
tudo graças a internet. Eu ainda não estou usando a ferramenta
internet como deveria ser usada, mas pretendo, cada vez mais, utilizá-la
melhor. O meu site está hospedado na Netpar em Curitiba, isso dificulta
um pouco, porque tenho que ter o próprio domínio, já
estamos resolvendo isso. Sou bastante grato a internet, principalmente porque
ela provou uma tese que eu tinha desde criança, desde os meus 10 ou
12 anos de idade, eu dizia que no futuro o artista não teria só
o direito, mas o dever de ser independente. Eu sou totalmente independente,
quando vou na internet e autorizo o download de uma música minha, ela
pertence a mim e a mais ninguém, se decidir que não quero ganhar
mais nada com aquilo, está decidido. O que não acontece com
artistas que tem suas obras vinculadas a editoras, porque se a editora falar
não, não adianta ele querer autorizar, porque a editora vai
ganhar, porque faz parte do comércio. Então a internet realmente
democratiza o acesso a música e a arte. Quando cada casa desse planeta
tiver um computador, a gente vai ter muito mais gente produzindo, a relação
com a música vai mudar, não vai mais existir mitos como Michael
Jackson, Madona, isso vai cair, não vai ter mais. Você vai ter
mais respeito e mais proximidade com o teu vizinho que é compositor,
você vai acessar internet e vai atravessar a rua para escutar música
na casa dele, é como eu imagino.
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de progresso edificante para o Universitário brasileiro, que deseja
fulgurar como um profissional de êxito ?
Plinio Oliveira
Eu sou apaixonado por biografias, já li dezenas de biografias e todas
que eu li desde Temudjin, que é Gêngis Khan até o Ghandi,
Martin Luther King, Madre Teresa de Calcutá, Einstein, desde um perverso
como Hitler, todos eles mudaram o mundo, não quando foram estadistas,
quando ganharam um prêmio Nobel, ou quando foram reconhecidos como libertadores,
como Ghandi, eles mudaram o mundo quando tinham 16 anos de idade e deciram
acreditar na sua verdade, acreditar que era possível viver um tempo
melhor. Então o que eu tenho a dizer para os jovens é que eu
mesmo decidi dar a minha contribuição para alteração
do mundo aos 16 - 17 - 18 anos que é a idade que as pessoas estão
entrando na faculdade. Por isso eu diria ao universitário, não
desista de sonhar, o sonho alimenta a vida, não deixe essa chama, essa
fé que você tem de mudar as coisas, é isso que faz um
grande profissional, foi isso que fez Thomas Edson, Benjamim Franklin, foi
isso que fez Tom Jobim, é isso que faz diferença, é você
continuar sonhando, pessoas que tem 40 anos de idade e que tem a ousadia de
um jovem de 18. O que eu tenho para dizer ao universitário é
que ele continue ousado, se o jovem deixar de aceitar essa canga que colocam
em cima da gente, essa carga de que somos números, você não
é um consumidor, você é uma pessoa, você não
é um número, você tem um nome, é isso que eu tenho
a dizer para os universitários.
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Atualmente você
vem desenvolvendo um projeto extremamente importante para a cultura brasileira,
nós gostaríamos que você falasse sobre ele ?
Plinio Oliveira
O projeto é o "Tons do Brasil", eu o comecei em 1997, no
dia 12 de julho foi ao ar pela primeira vez, tenho um recorte de jornal que
guardo com muita gratidão, onde o Estado do Paraná publicou
uma matéria dizendo assim: "Maestro Curitibano Coloca 9 Minutos
de Boa Música Brasileira no Ar para Competir com a Banalização
da Cultura Nacional". Porque o programa começou com 9 minutos
e hoje ele tem 1 hora de duração e não passa só
em Curitiba, passa em várias cidades do Brasil. A idéia é
simples trazer para a televisão, shows de música brasileira,
resgatando, documentando e às vezes, até em alguns momentos,
contextualizando e dando significado para músicas que são tão
fortes, que tem aquilo que falo, a coisa da verdade e da beleza, que as pessoas
conhecem mas não lembram, ou não conhecem e deveriam conhecer.
O programa atualmente traz mensalmente para o Teatro Guaíra aqui em
Curitiba-PR, que é um dos maiores da América Latina, um artista
significativo para a música brasileira; já vieram: Beto Guedes,
Francis Haime, Jane Dubock, Miucha, Zé da Velha e Severo Pontes, Os
Cariocas, Marcos Vale, Leni Andrade, Guinga, Fátima Guedes, Vagner
Tizo, a lista é enorme, já gravei com Ivan Lins, muita gente
boa já passou pelo programa e muita gente vai continuar passando. É
legal porque a gente faz ingressos a preços populares, eu digo isso
ao público com o maior orgulho, que o meu lucro como produtor seria
a bilheteria, tenho um patrocinador que é a Sul América Seguros,
que paga as despesas de produção e o acordo é assim,
eles pagam as despesas de produção e eu fico com a bilheteria.
E para garantir que as pessoas possam ir, faço um bilhete muito barato
e ainda dou metade para uma instituição beneficente. Este mês
o concerto show é com Cesar Camargo Mariano, marido da Elis Regina
e parte da renda vai para o Hospital Erasto Gaertner, digo parte porque 35%
vai para custos do Teatro, ECAD, ISS, então dos 65% restantes metade
vai para o Hospital Erasto Gaertner. Isso dá uma dimensão muito
especial para o projeto, porque as pessoas vêem que por traz de uma
idéia assim não pode estar a ambição, o capital,
por trás disso está o ideal e esse ideal tem mantido as coisas.
É um projeto muito importante, vai ser lançado em DVD e vai
ter distribuição mundial do "Tons do Brasil" que é
a primeira documentação em vídeo de música brasileira
que vai ser comercializada, tem projetos muito bons da TV Cultura, mas no
perfil do nosso no Brasil é o único. Eu digo com todo o orgulho,
você que ligar a televisão no "Tons do Brasil", você
nunca vai ouvir banalidade, jamais, você pode até não
gostar da música que está tocando alí, mas você
nunca vai poder dizer que é banal, trivial, ou feita para ganhar dinheiro.
É um projeto da minha vida, talvez eu morra fazendo o "Tons do
Brasil", talvez faça até um ponto e depois entregue para
o mundo e toque minha carreira adiante.
Curitiba - PR, 06 de Agosto de 2002.