Cientista quer fazer do Brasil referência em pesquisa de ponta
Transformar
o Brasil em um país de referência em pesquisa científica.
Esse é o projeto de Miguel Angelo Laporta Nicolelis, 42 anos, coordenador
do Laboratório de Neurociências da Universidade Duke, Carolina
do Norte, nos Estados Unidos, o maior laboratório de neurociências
do mundo.
O brasileiro Nicolelis espera ver em três anos o Instituto Internacional
de Neurociência funcionando em Natal (RN), como uma referência
mundial na área. "Esse é o primeiro projeto da
história do Brasil voltado não apenas para a ciência de
ponta, mas para a ciência como instrumento de transformação
social. É hora da ciência brasileira sair de seus castelos abstratos
e fazer algo pelo Brasil", afirma Nicolelis.
A instalação do Instituto em Natal não é aleatória.
Além de trazer para o Brasil um centro de referência na área,
ele quer que a produção científica fuja do eixo Rio -
São Paulo, onde
hoje se concentra mais de 70% da produção científica
do País.
O Instituto de Natal seria apenas uma primeira etapa. A idéia do cientista
é criar pelo menos 11 pólos como este em diferentes áreas,
de pesquisas agrícolas a genética, principalmente nas regiões
Norte e Nordeste do País. Para Nicolelis "a ciência de alto
nível, particularmente dos cientistas brasileiros há muito tempo
radicados no exterior, pode contribuir para a oxigenação da
ciência nacional, mas principalmente pode ser um agente de transformação
econômica e social em comunidades pobres do Brasil".
O primeiro passo para a construção do Instituto de Natal é
a realização do Simpósio de Neurociências, que
começou ontem (03/03) na capital potiguar e termina no dia 7. No primeiro
dia do Simpósio, a Universidade de Duke repassou 50 mil dólares
em apoio à construção do Instituto. Até o final
do encontro, a expectativa é conseguir muito mais. Nicolelis estima
que serão necessários US$ 30 milhões para a construção
do Instituto, sem contar os recursos necessários para a manutenção
do centro.
"Queremos criar um modelo novo de gestão científica no
Brasil. No exterior, o pesquisador precisa se virar para conseguir o financiamento
de seu trabalho. O que quero trazer para o Brasil é essa experiência
de captar recursos, principalmente na comunidade internacional que está
acostumada a fazer projetos deste porte. Nós queremos fazer uma parceria
com o governo brasileiro, mas não queremos onerar o governo",
garante Nicolelis.
Com base nesta filosofia está sendo criada a Fundação
Alberto Santos Dumont de Amparo a Pesquisa. Instituição sem
fins lucrativos terá como objetivo levantar recursos em todo o mundo.
A Fundação contará com escritórios nos EUA, Europa,
Japão e Brasil. Quando perguntado sobre as dificuldades que tem enfrentado
para concretizar seu sonho, Nicolelis é claro: "o mais difícil
é convencer o povo brasileiro de que é possível sonhar
algo tão ambicioso quanto isso e não ficar só no sonho,
mas realizar".
Há sete anos o pesquisador estuda o sistema de neurotransmissores responsáveis
pelo movimento no corpo. Sua pesquisa já conseguiu resultados interessantes
em macacos, que com sinais cerebrais conseguem movimentar robôs. Em
abril, ele vai iniciar os testes em seres humanos. O pesquisador acredita
estar muito próximo da criação de próteses inteligentes,
que restaurariam o movimento de pessoas com graves lesões no sistema
motor. Sua pesquisa conta com o apoio de celebridades, como Christopher Reeve,
ator que representou o Super Homem nos cinemas e depois de um acidente de
equitação perdeu quase todos os movimentos do corpo. (Eliane
Izolan)
Fonte: Agência Brasil
05/03/2004