Venenos de jararacas nordestinas poderão ser fonte de remédios para doenças sangüíneas

Purificar compostos dos venenos de jararacas nordestinas para auxiliar no tratamento de doenças sanguíneas. Esse é o objetivo final da pesquisa coordenada pela professora Miriam Camargo Guarnieri, do Departamento de Zoologia da Universidade Federal de Pernambuco. O estudo, em curso há dois anos, tem por objetivo produzir remédios para combater doenças relacionadas à hemostasia (sistema que regula a fluidez do sangue no corpo humano).
Utilizando as peçonhas (substâncias venenosas) da jararaca malha de cascavel (Bothrops erythromelas) e da jararaca do rabo branco (Bothrops leucurus), a pesquisa ainda está na fase inicial de purificação dos compostos encontrados nos venenos das duas cobras. "Os dois venenos têm mais de 50 substâncias. A maior dificuldade é você conseguir separar cada composto em estado puro, sem ter nada contaminado pelos outros, já que pode ser maléfico para o corpo humano", conta Miriam Guarnieri.
Segundo a pesquisadora, dos 12 compostos a serem purificados no estudo, seis substâncias das peçonhas das jararacas já foram isoladas. Duas delas são as enzimas fosfolipases, que inibem a agregação plaquetária, processo que está intimamente envolvido com o aparecimento da metástase no paciente que sofre de câncer. Segunda Miriam Guarnieri, a pesquisa também está em busca das desintegrinas, que agiriam da mesma forma que as fosfolipases, mas por processo diferente. "As plaquetas se envolvem nas células cancerígenas, impedindo que o corpo humano reconheça que existe um câncer, o que faz com que se instale num lugar diferente. Então, os compostos que procuramos têm a capacidade de impedir a ligação das células cancerígenas com as plaquetas", afirma a professora.
Outras doenças também estão no alvo da pesquisa. De acordo com Miriam Guarnieri, síndromes hemorrágicas, doenças hepáticas e outras patologias ligadas a deficiências congênitas de coagulação poderão ser tratadas através dos compostos purificados como, por exemplo, a trombose. "Quando você usa compostos químicos para obstruir a trombose, como a Eparina, pode acontecer de o paciente ter uma hemorragia. As proteínas que procuramos têm uma característica diferente, conseguindo controlar a trombose sem que ocorra uma hemorragia", diz.
Para a professora, a pesquisa possui grande importância social, desde que os objetivos propostos sejam alcançados. "Se conseguirmos, por exemplo, um remédio para câncer, que é a segunda causa de morte do Estado de Pernambuco, essa pesquisa tem uma importância social imensa. Além disso, muitos problemas de coração estão associados à fluidez do sangue. Assim, o número de pacientes que poderiam ser beneficiados com esse estudo não dá para contar", afirma.
Segundo a professora, inúmeras pesquisas com venenos de cobras já foram elaboradas. "Mas nenhuma com os animais daqui, que têm uma característica diferente, por terem se adaptado a um bioma tão diferente como a caatinga", diz. Financiado pelo CNPq, o estudo está sendo realizado por processos cromatográficos. Para isso, conta com o auxílio do Laboratório de Bioquímica da UFPE, do Laboratório de Imunopatologia Keizo Asami (Lika) e do Instituto de Pesquisas Energéticas Nucleares, localizado em São Paulo.
ENVENENAMENTO - O veneno da jararaca é constituído por substâncias que podem levar o homem à morte, ao entrarem em contato com o sistema sanguíneo. "O envenenamento se dá porque há muitas coisas que agem ao mesmo tempo, causando uma desregulagem total do sistema que mantém o nosso sangue correndo nas veias normalmente", explica a pesquisadora.
Para se manter viva ao longo dos tempos, a jararaca desenvolveu no veneno proteínas eficientes para aniquilar rapidamente sua presa. "A partir do uso de toxinas como ferramenta, alguns processos fisiológicos foram esclarecidos. Então, o veneno é um produto extremamente rico e diverso, com estruturas que ainda hoje se desconhecem. É uma fonte muito importante para o conhecimento, não só da fisiologia humana, mas também para o que conhecemos hoje em dia", diz. (Por Diogo Max, das Ascom/UFPE )
Mais informações: Professora Miriam Guarnieri - (81) 2126.8351
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Fonte: Assessoria de Comunicação da UFPE
31/10/2005

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