Fieis celebram o dia do Santo mais popular do Rio
Reza lenda que ele habita a "nobre porcelana sobre a seda azul".
Aos que desconhecem a letra de Caetano Veloso, a música alude ao lendário
São Jorge, ou Jorge da Capadócia, região turca onde teria
nascido o santo, e sua hipotética morada na lua.
Se a lua é de São Jorge, no dia 23 de abril as ruas do Rio também
a ele pertencem. O santo de maior popularidade na cidade ganhou um dia, legitimado
como feriado em março de 2008, para receber as orações
e reverência dos milhões de devotos em todo o estado, do qual
foi padroeiro até 1910, cedendo lugar a São Sebastião.
Jorge, dito com a intimidade dos que habitam o único estado da federação
a decretar o feriado, é Oxossi para os baianos, Ogum no sincretismo
religioso no Rio de Janeiro, santo guerreiro, mártir e padroeiro de
igrejas espalhadas por países como França, Egito, Itália,
Grécia, Alemanha, Inglaterra e Portugal.
Alcunhas à parte, o santo guerreiro atrai todo ano multidão
de fiéis às igrejas e missas realizadas a partir das cinco da
manhã, ao som da célebre e ruidosa alvorada executada nas nos
templos, até as derradeiras horas das festividades, que costumam cessar
depois das 22h.
A primeira lei, aprovada em novembro de 2008, decretou feriado municipal na
cidade, para que os cariocas pudessem render homenagens ao mártir católico,
sem ter que dividir a tarefa com afazeres profissionais.
- Há mais de 20 anos eu acordo às quatro da manhã, assisto
à alvorada na igreja de Quintino, fico para a missa e vou à
procissão mais tarde para agradecê-lo por sempre me ajudar em
minhas batalhas – declara Odette Cardoso, de 69 anos.
De acordo com a igreja católica, o culto ao santo foi trazido ao Brasil
pelos portugueses, sobretudo por Dom João I, que, decretou, em 1387,
a obrigação de levar a imagem de Jorge nas procissões
de Corpus Christi.
- Durante os 15 dias de festa, a igreja do Centro chega a receber mais de
130 mil pessoas, que vêm celebrar sua fé e se por em oração
aos pés da imagem de Jorge, que está na igreja desde 1860 -
declara o ministro da irmandade da igreja de São Gonçalo e São
Jorge, no Centro da cidade.
Ícone pop
Com status de santo pop, o mártir, cravado no imaginário popular
montado num cavalo branco e a desferir golpe mortal em um dragão, ganha
aura de “fashion” ao estampar camisetas, anéis, bolsas,
adesivos e assessórios, que já desfilaram em badaladas passarelas.
O comércio da cidade lucra com os festejos e a devoção
dos fiéis, a exemplo do que acontece no polo comercial do Saara, no
centro do Rio.
- Esta é a melhor época de vendas para mim. O movimento chega
a quadriplicar, vendo mais que no fim do ano. Durante todo o dia de São
Jorge chegamos a vender mais de mil camisas com a estampa do santo –
afirma o lojista do Saara Tibiriçá Nunes.
Outra moda que atesta a popularidade de São Jorge são as tatuagens
com a imagem mais conhecida do santo, ostentadas por muitos cariocas.
– Muitas pessoas querem gravar no corpo a imagem de Jorge, para pagar
uma promessa ou até mesmo em sinal de proteção. A maioria
dos tatuados aqui no estúdio são policiais militares, classe
que é apadrinhada pelo santo. É muito comum também os
clientes pedirem para escrever alguma parte da oração de São
Jorge. Alguns amigos meus, tatuadores de outros países, me perguntam
por que os brasileiros gostam tanto dele, pois sempre que acessam os sites
de artistas nacionais, se deparam com uma tattoo do guerreiro – enfatiza
Marcus Gullo, tatuador há mais de 20 anos.
Além dos soldados, escoteiros e do time paulista do Corinthians, outra
“tribo” que é fã do guerreiro é formada por
jogadores brasileiros de RPG (Role Playing Game), jogo de interpretação,
que encontraram na indumentária do santo um padrinho ideal para a modalidade.
- Ele leva armadura, cavalo, lança e espada, quesitos imprescindíveis
para as batalhas do jogo - esclarece Guilherme Cunha, jogador de RPG.
História
Soldado, mártir, cristão convertido e defensor de donzelas.
Muitas são as histórias que tentam dar conta da figura mítica
de Jorge. A igreja católica declara que o santo é reverenciado
desde o século IV, no Oriente, sendo padroeiro da Inglaterra, Lituânia,
Moscou,Geórgia, Portugal e Catalunha (região hispânica).
Após deixar o ofício de soldado romano, Jorge teria se convertido
ao cristianismo, o que prevalece como causa de sua morte, já que, após
perseguição do imperador Diocleciano, o mártir não
teria negado sua fé, terminando decapitado na Palestina, em dia 23
de abril do ano 303.
A imagem do santo remete à lenda que afirma que Jorge teria vencido,
a golpes de lança, um dragão que assolava uma cidade no Oriente
Médio, a exigir constantes sacrifícios de moças “donzelas”.
Jorge teria aparecido, em nome de Cristo, a fim de propiciar a conversão
de todos. Para alguns, o dragão (o demônio) simbolizaria a idolatria
destruída com as armas da fé. Já a donzela, que o santo
defendeu, representaria a província da qual ele extirpou as heresias.
Os restos mortais de São Jorge descansam em Lida, Israel, onde foi
sepultado e onde o imperador cristão Constantino mandou erguer suntuoso
oratório aberto aos fiéis.
Serviço
Neste ano, a Arquidiocese do Rio organizou uma programação unificada
que inclui missas, procissão e cavalgadas em homenagem a São
Jorge.
As homenagens ao mártir começam às 5h, com uma alvorada,
seguida de missa na Igreja de São Gonçalo e São Jorge,
na Rua da Alfândega, 382, no Centro.
Às 8h, uma carreata com a imagem de São Jorge sairá em
direção à Igreja de Quintino, na Rua Clarimundo de Melo,
769, onde também haverá alvorada às 5 da manhã.
Às 10h haverá uma missa solene. Às 14h, começará
a homenagem ao santo, em frente à Igreja da Ressurreição,
na Rua Francisco Otaviano, em Ipanema.
Às 15h haverá missa solene no Forte de Copacabana, seguida de
procissão motorizada. Mil motociclistas vão sair em direção
à Igreja de São Jorge, no Centro.
Às 17h 30, o Arcebispo do Rio, Dom Orani Tempesta, vai participar de
vários eventos em Santa Cruz, no Largo do Bodegão, 435, entre
eles, uma cavalgada em homenagem a São Jorge.
A procissão organizada pela paróquia de Quintino será
realizada às 16h e em Jacarepaguá, às 17h, com saída
do Largo do Anil. Na igreja do Centro, a tradicional caminhada será
realizada neste domingo (25/4), às 16h.
Às 19h haverá encenação do “Auto de São
Jorge da Capadócia”, feita por 20 atores do Grupo Teatral do
Vicariato Jacarepaguá, na Praça Geisa Bôscoli, no Largo
do Anil.
Festa da União da Ilha do Governador
A escola de samba fará uma festa, com entrada franca, para comemorar
o dia do padroeiro da agremiação. Às 10h haverá
missa campal, às 11h, queima de fogos, e a partir das 12h será
servido o tradicional cozido feito pelas baianas da escola, por R$ 15. (Clarissa
Barcellos)
Fonte: Governo do Estado do Rio de Janeiro.
23/04/2010