Há vida literária na web, dizem escritores
As casas editoriais estão de olho na produção literária postada na internet,
alerta a professora Beatriz Resende, doutora em literatura comparada. Já o
escritor pernambucano Marcelino Freire faz uma veemente defesa do uso das
novas tecnologias, como a rede social Twitter, para aproximar os jovens da
literatura.
O fenômeno da produção postada na web esteve presente nas rodas de escritores
e leitores da 7ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Até Chico
Buarque, na mesa Sequências Brasileiras, que agitou a festa na noite de sexta-feira
(3), confessou que recorre ao Google nas suas pesquisas.
Autora de livros sobre crítica cultural, Beatriz Resende considera a grande
novidade do universo literário o uso da internet para divulgar as obras de
escritores que estão dando os primeiros passos. “A novidade é essa nova vida
literária, essa circulação de autores, o interesse das editoras por uma literatura
que é postada, colocada na web”, afirmou Beatriz, convidada para mediar a
mesa O Avesso do Realismo, palco do encontro entre o afegão Atiq Rahimi e
o brasileiro Bernardo Carvalho ontem (3).
Ela cita como exemplo emblemático desse novo fenômeno o caso da jovem Ana
Paula Maia, autora de três romances, entre eles A Guerra dos Bastardos. “Ela
publicou o primeiro romance, que teve boa recepção, mas não conseguiu editora
para o segundo romance. Escreveu o terceiro e nada. Aí, decidiu colocar na
web, em capítulos. E a coisa funcionou, começou a chamar a atenção. Pouco
depois, Ana Paula publicou os dois romances, acrescidos de uma novela genial.
É um exemplo de como usar essas novas mídias a seu favor.”
A professora acrescentou que os recursos oferecidos pela internet estão nas
aulas de crítica teatral em uma universidade do Rio de Janeiro. “Fizemos um
blog com a produção dos alunos. Foi engraçado, porque, logo no início, houve
uma certa resistência. Não era, evidentemente, um problema com a tecnologia.
Era um problema com se mostrar, se revelar. Se você coloca na internet, no
dia seguinte pode estar no Google, no mundo. No fim do semestre, imprimi toda
a produção do blog e levei para a turma. Foi uma surpresa muito interessante
ver que a produção também se sustentava em papel”, afirmou.
O blog é um dos instrumentos de trabalho do escritor Marcelino Freire, autor
de Balé Ralé e Angu de Sangue. E, por meio do Twitter, adotado recentemente,
quer postar 1.001 “contos nanicos”. “Acho o Twitter uma mania de perseguição,
uma coisa esquizofrênica. Você está me seguindo, eu estou te seguindo. Mas
quem está te seguindo, você não conhece, nunca viu na vida. Isso é uma neurose.
Mas o que vou fazer com isso? Literatura. Onde ela, literatura, puder estar,
seja no celular, no Twitter, acho ótimo”, diverte-se.
A publicação de pequenos textos literários é frequente na vida de Freire.
Em 2004, inspirado na antologia Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século,
de Ítalo Moriconi, o pernambucano publicou o livro Os Cem Menores Contos Brasileiros
do Século. Para isso, convidou 100 autores, como Dalton Trevisan, Millôr Fernandes,
Lygia Fagundes Telles, que escreveram contos com até 50 letras.
Para Marcelino Freire, as novas mídias podem levar grandes nomes da literatura
às crianças. “Machado de Assis poderia estar no Twitter. De que forma? Dom
Casmurro, que tem capítulos curtíssimos. Mas tem que mostrar que literatura
é vida. Vou falar de Machado de Assis, do Rio de Janeiro daquela época, mas
vou trazer também um autor contemporâneo para 'conversar' com Machado sobre
neuroses e angústias. E literatura precisa ser divertida. Não pode ser aquela
chatice reinante”, advertiu, com a língua sempre afiada.
“Falam que a internet tem muito lixo. Tem, porque nós produzimos lixo. É um
espelho do que nós somos. Vamos fazer com que essa ferramenta seja poderosa
na transformação das pessoas”, defendeu.
Para a professora Beatriz Resende, não há, por parte do jovem, uma espécie
de “recusa da literatura”. O que há, segundo ela, é uma “simultaneidade de
ações”, o que traz uma nova percepção da literatura pela juventude. “Ler um
romance implica recolhimento. Meu apego ao livro vem de uma infância solitária,
de um início de juventude solitário. Então, o livro era meu grande companheiro.
Isso não acontece mais. O jovem não fica mais solitário. Ele pode estar sozinho,
trancado no quarto, mas está navegando na web. Mas sou uma otimista. Haverá
uma nova percepção da literatura por parte dos jovens”, prevê. (
Lísia Gusmão)
Fonte: Agência Brasil.
04/07/2009